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Livro 5: Sobrevivente

S de Sobrevivente, isso mesmo Sorvete. Sobrevivente sobreviveu à essa nossa era de pseudos escritores aka escritores de best sellers, é do mesmo autor do livro Clube da Luta, Chuck Palahniuk. Chuck Palahniuk é ácido acetilsalicílico só que não, para você que gosta de inflamatórios, narrativas pesadas, agressivas, transgressoras, subversivas…

A linguagem de Palahniuk é constante em seus livros, todos têm a mesma áurea, a mesma ideia de oposição ao consumismo, o consumismo leva à destruição/conformismo/desilusão da sociedade, com o único fim plausível de destruição e queda. ((É um livro altamente cinematográfico.)) Sobrevivente conta a história de Tender Branson, narrado em primeira pessoa com capítulos numerados em contagem decrescente onde estamos lendo a gravação (a caixa preta) de Branson em uma cabine de um avião onde ele resolve contar toda a sua história e o motivo pelo qual ele sequestrou o avião para se suicidar.

Tender Branson é um membro da Igreja do Credo, e acredita em sua fé e até o dia da Libertação (onde os membros devem todos se suicidar) ele age padronizadamente sem ter coragem suficiente para se suicidar, mas agora ele já sabe que tem que se suicidar e que não tem escape possível. Tender Branson é um cara excêntrico e perdido, ele conta sua vida de maneira fragmentada, com frases repetidas criando inevitavelmente uma sensação de neurose psicótica do narrador (aka estilo do autor). Ele muitas vezes beira à loucura e perde completamente o senso de coisas certas ou erradas começando a duvidar de tudo e vendo como é difícil ter que dar passos sozinho (sem padrão, sem alguém que o guie, sem que sua vida seja determinada por outro).

Chuck Palahniuk lança a grande de questão de que estamos todos sendo guiados, ora por uma crença, ora por estilos de vida, ora por determinadas pessoas. E que, se sairmos desse ciclo vicioso estaremos em completo vazio, sem saber o que fazer, sem saber lidar com a “liberdade” de conduta. Nós não somos treinados para lidar com o desconhecido, com o novo.

Tender é o paradoxo entre seguir uma ordem, uma lógica e ter fixação por organização (refletindo os costumes que aprendeu no credo) e ao mesmo tempo tem uma tendência a querer se lidar da ordem, da lógica e de todas as regras da sociedade, que ele não entende e que o incomoda. Ele estabelece um paralelo com a sociedade “sem” regras, “sem” religião, que “se diz” com toda liberdade, mas que ele vê em pequenas frestas que também segue padrões e ordens. Há uma confusão com seu número de telefone e ele se vê dando conselhos para pessoas (que estão prestes a se suicidar e fazem a ligação) para que se suicidem mesmo.

Isso se mata mesmo. Sobrevivente é tragicômico e Branson é um anti-heroi de primeira. É interessante quando ele mesmo conta piadas da Igreja do Credo. Como você sabe que é alguém da Igreja do Credo? Morto. O que alguém da Igreja do Credo está fazendo agora? Morto. Há muitas reviravoltas, Branson se torna famoso e tem um relacionamento/romance com Fertility, que é sensitiva ao ponto de ter sonhos de desastres e ela saber exatamente quando e onde eles ocorrerão, ele e Fertility se aproveitam e têm cenas ótimas nessas situações (Lembrou-me os personagens (casais) de Martin Page).

Branson se torna fugitivo da polícia (por causa de seu irmão que mata todos os que eram da Igreja do Credo e ainda não se suicidaram) e vai de encontro ao seu inevitável fim, uma vez que ele mesmo já não sabe aonde quer chegar e se viver, com todas as dores e traumas do passado (toda sua família se suicidou junta no dia da Libertação), já não consegue pois está asfixiado demais. Tender Branson mais do que ninguém era alguém que sabia com todas as letras que tudo asfixia.

Livro 4: Conversas com Woody Allen

Estou saindo completamente do ritmo e do que eu me comprometi a postar pelo simples fato de que agora fazendo aulas de roteiro e necessariamente lendo coisas voltadas à área, me restou menos tempo para assistir aos dramas. Continuo vendo só que em um ritmo mais lento… Então, como agora eles estão concorrendo mais com a lista de filmes a analisar e rever, venho propor também falar sobre filmes. Eu sei que, por hora, vai ficar muito abrangente meus temas para posts, mas o meu foco sempre será doramas.

Com o livro Conversas com Woody Allen aprendi muito. Primeiro porque, nota-se que ele tem um senso e uma noção de realidade, objetividade e até um pragmatismo únicos, quando você lê Woody Allen falando sobre seus filmes, seus roteiros, como foi filmá-los, quais foram as dificuldades, o por quê de seu gênero principal ser a comédia, com aquela humildade não intencional e aquela concepção de vida… Não é por acaso que são bons filmes talvez porque haja uma boa mentalidade por trás deles. Talvez porque ele deseje ser sempre verdadeiro com relação à sua ideia e a como transmiti-la, sem tentar ir ao encontro das marés de mercado, sem se deixar levar pelas críticas ou pela fama.

Conversas com Woody Allen é uma compilação de entrevistas do jornalista Eric Lax que acabou se tornando amigo de Allen e elencou entrevistas que começaram desde os anos 70 até 2007. Vejo então a necessidade de transcrição de algumas perguntas e duas páginas desse livro que ao meu ver transmitem todo seu espírito, sua ideia a respeito dos filmes.

“Você se vê como artista? Tenho uma visão muito realista de mim mesmo. Algumas pessoas acham que é humildade excessiva, ou até mesmo falsa modéstia, quando digo que nunca fiz um grande filme. Quando eu dramatizo minhas observações da vida, dizem que é cinismo. Mas não é nada disso, em nenhum dos casos. Estou dizendo a verdade. Não me vejo como um artista. Eu me vejo como um cineasta trabalhador, que escolheu seguir no rumo de trabalhar o tempo todo em vez de fazer dos meus filmes algum evento especial do tapete vermelho de três em três anos. Não sou cínico, e estou longe de ser um artista. Sou um sortudo viciado em trabalho. (pg 140)

[dentro de uma resposta para uma outra pergunta] “(…) Quando alguém fala o quanto é mais difícil fazer comédia, não quer dizer mais difícil, quer dizer mais raro. Simplesmente a comédia vem de modo natural para algumas pessoas, e o material dramático vem de modo natural para outras. E eu sinto que sempre vou ser mais capaz de fazer o público rir do que o Ingmar Bergman. Se nós dois tivéssemos de fazer doze comédias cada um, as minhas iam ser mais engraçadas. Eu faria o público rir. E o contrário, claro, com filmes sérios. (pg 148)

[dentro de uma resposta para uma outra pergunta] “(…) Quando eu estava fazendo Match Point, eu acordava de manhã e lá estava Jonathan Rhys-Meyers e a linda Scarlett Johansson, e eu passava o meu tempo com eles o dia inteiro, e a gente fazia piadas e tentava fazer coisas muito sérias quando era uma cena séria, e às vezes ríamos muito depois que acabava, ou antes de rodar, por causa da tensão de fazer aquilo, ou do constrangimento, ou só pelo prazer que estávamos tendo, o prazer malicioso que temos ao fingir que somos tão durões.

“Faço isso durante algum tempo, depois levo o copião e sento com o meu editor na sala de montagem, peço um sanduíche de atum e a coisa toma forma, é muito prazeroso. É igual a fazer a casa em Southampton. Vira uma coisa estética e prazerosa. E então chega um ponto em que está basicamente acabado. Você não precisa de nada além de umas decisões aqui e ali. E então [ele estala os dedos], lança-se o filme, e as pessoas gostam ou não gostam. E eu preferia não ficar sabendo. Fiz o filme e está acabado. Faz parte da minha personalidade depressiva não comemorar um sucesso e não ficar com uma lança cravada no coração quando um filme fracassa.

“Anos atrás, quando Manhattan estreou em Nova York – foi muito divulgado antes de estrear -, não fui na première, no Ziegfeld Theater, nem depois na grande festa no Whitney [Museum of American Art], entrei num avião uns dias antes e fui para Paris. Então as pessoas pensam, ele não liga, ou é muito indiferente, ou é metido, arrogante, mas como eu disse, não é nada disso. Não é arrogância, é mais ausência de alegria. Não me emociona. Não quer dizer nada [sorri]. Mas Paris me emociona.

“Estou tentando explicar como eu me sinto, e consigo entender por que isso é mal interpretado: não existe honra que um ser humano possa me dar que signifique alguma coisa para mim. Para mim, receber alguma coisa que tenha significado para mim exigiria um universo diferente. [Dá uma risadinha] Sei que isso parece excentricidade, ou orgulho, ou “ele acha que está acima de tudo”. Mas não estou acima de nada. Ou estou abaixo, ou pelo menos do lado [ri mais forte].

“Por que isso? Porque os prêmios são feitos para juntar poeira; eles não mudam a sua vida, não afetam a sua saúde de forma positiva, nem a sua longevidade ou sua felicidade emocional. Os lugares que você quer consertar na sua vida, ou ajudar, o ajuste e o conforto de que você precisa, não são tocados pelas grandes honras do mundo.

“Então, o mundo inteiro parado no túmulo de Shakespeare, entoando loas a ele e fazendo dele uma instituição maior que a vida no planeta, não significa absolutamente nada para o Bardo. E não teria significado nada se ele estivesse vivo e na estreia de Hamlet [começa a rir] tivesse uma dor de dente [rindo mais forte agora]. Recebe-se um pequeno conforto da ciência e da tecnologia. É óbvio que eles não têm todas as respostas, mas têm algumas coisas que podem ajudar. O que ajuda mesmo é ter acesso à vacina Salk e ao filtro solar. Mas o resto todo – os filósofos, os cientistas, essa outra coisa – é tudo… [Ele se cala].

[Nota do entrevistador] “(Os comentários me lembram uma coisa que ele me disse no final dos anos 80, enquanto estava filmando Crimes e pecados: “Por que não optar por uma vida sensual em vez de uma vida de trabalho extenuante? Quando você chega no portão do céu, entra o sujeito que passou a vida inteira perseguindo e perseguindo mulheres e teve uma vida de sibarita, e você entra também. A única razão que consigo imaginar para não entrar é uma outra forma de negação da morte. Você se ilude de que existe uma razão para levar uma vida significativa, uma vida produtiva de trabalho, e luta e busca aperfeiçoamento numa profissão, numa arte. Mas a verdade é que você poderia passar esse tempo se permitindo tudo – supondo-se que tenha dinheiro para isso – porque as duas vidas levam ao mesmo lugar.

“Se eu não gosto de alguma coisa, não importa quantos prêmios essa coisa ganhe. É impossível manter o seu próprio critério e não ceder às tendências do mercado. Espero que em algum momento se perceba que na verdade não sou um descontente, ou que a minha ambição, as minhas pretensões – que eu admito francamente – não são de conquistar poder. Só quero fazer alguma coisa que entretenha as pessoas, e estou me desdobrando para isso”. Mas ele não se incomoda de fato se o público não se diverte: “Na verdade, estou acostumado com isso”.) (pgs. 162 e 164)

[Trecho de uma entrevista na internet] Allen e Soon-Yi Previn se casaram em 1997. “Se alguém me dissesse quando era mais jovem, ‘Você vai acabar se casando com uma moça 35 anos mais jovem que você e além disso, uma coreana, fora do show business, nada interessada no show business’, eu teria dito, ‘Você está completamente maluco’”, disse Allen.

Livro 3: O diário de Bridget Jones

O diário de Bridget Jones foi escrito por Helen Fielding e a adaptação para o cinema foi tudo menos engraçada. Tudo bem, eles tentaram. É difícil encontrar um livro de comédia que não seja forçado com piadinhas preconceituosas ou de cunho sexual. O livro é escrito em primeira pessoa, Bridget Jones, que nos brinda com seu diário, pensamentos mais íntimos (em que todo mundo diz que se identifica de alguma maneira – porque também é basicamente coisas que já pensamos pelo menos alguma vez na vida) e situações desastrosas e altamente cômicas.

O humor nos faz compreender que para sermos realmente engraçados na vida real, não podemos simplesmente “forçar a barra” e ficar querendo ser engraçado o tempo todo, aliás o nome disso é “sou um mala brega”, mas quem sabe se formos pré dispostos à catástrofes em geral e ao mesmo tempo tivermos ideias malucas para sairmos delas… Acho que o humor é ficção. Não existe humor na vida real. Woody Allen mesmo disse que sua existência não é tão engraçada quanto seu alter ego nos filmes. Não dá para ser. Nunca se é.

Comediantes de stand up e afins que o digam. Eles não conseguem ser engraçados o tempo todo. Aliás para se ser engraçado precisa ser pensado e ser muito inteligente. Na verdade, tem também aquele humor espontâneo que pode surgir das situações cotidianas etc, mas são mais imprecisos…

Bridget Jones é uma heroína de 30 anos que é independente e está a procura de um amor. Ela é uma espécie de My name is Kim Sam Soon só que não. Ela tem 3 amigas, ela é uma protagonista de I need romance só que não. Ela é surgimento desses super esteriótipos femininos que ganharam o mundo todo com o nome de chick lit quando livros e com o nome de mulheres imbecis contemporâneas etc.

É notória a verossimilhança aka paródia grande de Orgulho e Preconceito, se vocês não notaram aconselho notar. A própria Bridget Jones e amigas adoram demais o livro de Jane Austen e Bridget Jones até entrevistou Colin Firth (que fez a versão de 1995 para TV). Até o seu par – que ela conhece em uma festa de família (como Elizabeth conhece Mr. Darcy) – se chama Mark Darcy em completa alusão ao Mr. Fitzwilliam Darcy s2.

E o romance segue de tal maneira que muitas vezes você se pega lembrando de Orgulho e Preconceito. É como Orgulho e Preconceito e os zumbis só que não. Só que com comédia e sem uma cópia deslavada da versão original em que Jane Austen ressuscitou feito zumbi only ossos urrando demonstrando todo desprezo com essa injúria causada contra ela. Injuriada.

O que mais gosto nos livros da Jane Austen é que ela conserva aquele humor fino e sutil ao longo de sua escrita rebuscada e é realmente um primor com aqueles diálogos que te lembram uma partida de tênis. A história, o romance também são lindos s2, mas o que mais me chamou a atenção sempre foi a comicidade de suas palavras. Aquela dor de rir de uma verdade zombada e de uma sociedade idiota. (Enfim, não é esse o livro em análise rs)

O diário de Bridget Jones é tão bom comicamente que você pode ler um capítulo do livro e sair escrevendo comédia e contando piadas durante pelo menos uma semana. Parece exagero, mas realmente é assim que me sinto quando leio. Acho que já li umas três vezes, porque assim como Orgulho e Preconceito é um remédio para estar à beirada da cama, O diário de Bridget Jones também é um santo colírio(?).

Ele é tão inspiração que é assim que classifico um livro de comédia como bom. Um bom escritor simplesmente vai te fazer imitar até inconscientemente o modo como ele escreve (experiência própria), você acaba de ler um livro tão alucinado que fica que quase escreve um igual ou uma paródia dele logo em seguida. Se você teve vontade de fazer isso, é porque é bom.

Bridget se envolve com um colega de trabalho mulherengo e arrogante (Daniel) e outras situações-confusões até que Mark se encanta por ela de alguma forma e eles começam a namorar. O segundo volume do livro não é tão bom quanto o primeiro, não sei se porque quando você está namorando a sua vida se resume a um porre só, se estamos já cansados da história, ou se ela estava realmente menos inspirada e mais obrigada a fazê-lo só porque o primeiro foi um sucesso. Isso também pode ser opinião minha em exceção, já que a minha irmã gostou bastante do segundo volume.

Ela tem as paranoias da mulher moderna, se preocupa com dieta, com as roupas, não é organizada, não sabe fazer nada na cozinha, é ciumenta e exagerada, procura ajuda nas situações em que se envolve nos seus livros de auto-ajuda (aliás todo a sabedoria dela provém de auto-ajuda), ela é o caos em pessoa. Fica claro que através das risadas também estamos levando um tapa na cara por sermos exatamente como ela, contudo, é uma personagem cativante, engraçada e amada por nós todos. Ela possui senso sobre amizade, amor e companheirismo e no fundo a simplicidade e a sinceridade dela não são tão ruins assim. Ela é ela o tempo todo sem medo de ser feliz ou de você rir disso.

Sem forçar comédia ou fingimentos, esse foi um livro original que inovou em comédia e romances para “os tempos modernos” tanto que foi escrito em 1996 e até hoje pode ser lido sem medo pela sua atemporalidade. (Será?)

Na primeira página ela começa com as resoluções de final de ano do que vai ou não fazer:

“NÃO VOU:

(…) Desperdiçar meu dinheiro com: máquinas de fazer macarrão, sorvete ou qualquer outro utensílio culinário que jamais usarei; livros de autores que nunca conseguirei ler e que só servem para impressionar na estante; lingerie exótica, inútil já que não tenho namorado.

Ficar em casa em atitudes indecorosas, e sempre imaginar que pode ter alguém olhando.

Gastar mais do que ganho.

Perder o controle dos papéis empilhados pela casa.

Ficar interessada em qualquer um desses tipos: alcoólatras, workaholics, homens com horror a compromisso, os casados ou que têm namorada, misóginos, megalomaníacos, chauvinistas, babacas emocionais ou interesseiros, pervertidos.

Enlouquecer por causa de homem, mas sim ter relações com base numa avaliação madura do caráter.

Falar mal de ninguém pelas costas, mas sim ter uma postura positiva em relação a todo mundo. (…)

EU VOU:

Reduzir a circunferência das coxas em 7 centímetros (ou seja 3,5 centímetros de cada lado), fazendo uma dieta anticelulite.

Tirar tudo que é irrelevante do apartamento.

Não sair toda noite, mas sim ficar em casa lendo livros e ouvindo música clássica.

Comer mais legumes.

Levantar da cama assim que acordar.

Organizar as fotos em álbuns.

Preparar uma seleção de fitas que dão “o clima” para ter sempre à mão as melhores músicas românticas/para dançar/excitantes/feministas etc. em vez de me transformar em uma espécie de DJ bêbada com todas as fitas espalhadas pelo chão.

Criar uma relação sólida com um adulto responsável.

Aprender a programar o videocassete.”

Livro 2: Bartleby, o escrivão

Hoje vou falar sobre um conto de Herman Melville. Li recentemente a edição da Cosac & Naify e deixo aqui uma explicação da editora sobre:

“Para ler a nova edição deste clássico de 1853, o leitor começa pelo desafio de descosturar a capa (puxando para baixo a linha vermelha que a lacra) e cortar as páginas não refiladas do livro (com a espátula plástica que acompanha o livro). Só assim, aos poucos, poderá desemparedar este personagem enigmático da ficção moderna que, no dizer do filósofo francês Gilles Deleuze, “desafia toda a psicologia e a lógica da razão”.”

Tem apenas 88 páginas, super rápido de ler, tem uma história que prende pelo jeito intrigante com que é revelada aos poucos. É uma daquelas histórias absurdas que estão cheias de humor situacional e inevitavelmente gritando sobre questões da nossa vida cotidiana, beirando um drama existencial.

Quando você se depara com Bartleby automaticamente começa a se questionar sobre todas as suas próprias situações em que é exposta a sua personalidade e também sobre seus próprios traumas psicológicos. Será que nem todo mundo tem um comportamento que posso ser considerado estranho, inadequado e que reflita questões internas?

Melville com esse conto foi comparado à Kafka, e que tem forte influencia de Camus. Será? É considerado o precursor do Absurdismo na literatura.

O interessante desse livro é que as palavras de Melville bailam sobre as páginas e uma música toca de fundo e nos concentra, nos submerge na história. Parece que não, mas sabemos identificar facilmente quando lemos um livro se o autor tem ou não tem a técnica da escrita devidamente polida, se o autor tem ou não tem aquele dom, aquela distinção nata de uma história com potencial.

O potencial de Bartleby salta aos olhos. É um personagem tão marcante e influenciador, que como exemplo, digo desde já que todos nós aqui na empresa (os quais o livro circulou em mãos) nos tornamos adeptos convictos de seu famoso bordão “acho melhor não”.

Eu diria que Bartleby é uma proposta para repensarmos na sociedade e nas questões trabalhistas e sociais nos quais nos prendemos sem saber direito o porquê disso. É um diálogo com os padrões sociais e o indivíduo que está preso a isso, que consiste em um ser pensante que será afetado direta ou indiretamente e trará em si as conseqüências de seguir esse padrão.

É como as cabeças de TV de Blek le rat ou aquele clipe do System of a down (BYOB) em que todas as cabeças são iguais… É no mesmo princípio e questionando as mesmas idéias de “Admirável mundo novo” de Aldous Huxley.

Bartleby é contado em primeira pessoa por um advogado não tão confiável e acomodado que contrata Bartleby como escrivão. Como chefe ele acaba pedindo para Bartleby fazer revisão de alguns documentos, além de cópias dos documentos. Nesse e em todos os outros pedidos do chefe, Bartleby simplesmente diz “acho melhor não”.

Ele simplesmente se recusa a fazer qualquer coisa e o chefe não consegue fazer nada contra Bartleby. Bartleby acaba até morando no escritório e o chefe, sabendo da estranheza de bartleby e se convencendo de que ele tem seus motivos.

Mas a reputação dele anda em jogo entre os advogados e como Bartleby não abandona mais o escritório, ele mesmo decide ir embora. Não há motivo aparente para Bartleby agir assim, o que nos deixa muito intrigados e o que o narrador também procura saber.

Bartleby acaba indo para prisão, onde acha melhor não comer e recusa a amizade do narrador que vai visitá-lo. Bartleby morre. Algum tempo depois o narrador soube da história de vida de Bartleby, onde trabalha na Dead Letter Office mexendo com cartas mortas, isso talvez pudesse ter refletido no temperamento de Bartleby.

“As cartas são emblemas de nossa mortalidade e a falha de nossas boas intenções.”

Um conto tocante em que Bartleby mudou a vida do narrador, mas não só dele, e sim, de todos aqueles que leem. Sem palavras para esse livro, ou melhor, acho melhor não.

Jessica Jung também tem uma palavrinha a dizer?

Livro 1: Melancia

POR QUE NÃO LER, NUNCA LER, NEM PASSAR PERTO DO LIVRO MELANCIA DE MARIAN KEYES???

Primeiro, bem-vindos ao Clube da Leitura. A primeira regra do Clube da Leitura é… não falar sobre o Clube da Leitura. (tudo bem, brinks)

Um dos livros que comprei e detestei ter jogado meu dinheiro no lixo, foi Melancia de Marian Keyes. Tudo bem, você querer escrever um chik lit, com humor, graça, fina ironia, destinada à mulheres contemporâneas, jovens e lindas assim como eu. Só não me faça, por favor, pagar 20 reais (ou que seja) nessa merda. Uma comparação plausível, que todos vocês com certeza já apalparam é aquele humor corriqueiro e deplorável dos programas de humor televisivo.

Não fosse isso, seria uma história completamente sem graça, com esteriótipos exagerados tentando te fazer rir, às voltas de uma vida cotidiana de uma mulher de 30 anos que acaba de ganhar um bebê e é deixada pelo marido. Então, temos aquela velha história de conhecer um cara mais jovem, lindo e maravilhoso que resolve bancar o milagreiro e se interessar por ela.

É todo um conjunto de história, humor, e Ctrl C + Ctrl V que já estamos cansados de ver. Eu chorei copiosamente ao ver que desperdicei as minhas tão lindas férias com um livro desse tipo. Assim, até euzinha publico e saio best seller. Assim, até euzinha supero a grana de Eike Batista. A poesia está morta, o Clube da Leitura entrou em colapso após uma análise desse livro. O CAOS nunca morreu e acabam de jogar biribinha na sua garagem em tom de desaprovação.

Vai por mim, Marian Keyes pode ter lindos olhos azuis, mas não é o que se pode chamar de boa escritora, ela tenta imitar Helen Fielding (Bridget Jones) só que não:

“Sentindo-me um tanto tola (mas não tão tola, afinal, eu tinha meia garrafa de vodca ali perto), comecei a pedalar. E, enquanto o restante da casa dormia, eu pedalava e suava. E, depois, por algum tempo, remei e suei. E, depois, voltei para a bicicleta novamente e pedalei e suei um pouco mais. […] Não pude deixar de sentir pena de mim mesma pela pungente justaposição.” pg 103 – Edição Bestbolso

Ainda bem que ela desde já nos livra da carga de sentir pena dela. Porque olha. Essa é aquela traminha adequada para você ler em um avião, prestando atenção somente para o soar do alto-falante: “Atenção senhores passageiros isso é uma turbulência”. Talvez este livro tenha outras utilidades, como por exemplo, servir de contrapeso, escorar uma mesa com pés deficientes, matar mosquitos, pernilongos e baratas. Quando realmente sentir que é algo inútil, faça o bem à natureza, seja ecologicamente verde e o recicle. Talvez você protestar a respeito desse desrespeito para com você, por te insultarem desse modo, te chamarem na cara dura de leitorzinho de quinta, de analfabetinho funcional, é sambar na sua cara! Então, você irá queimar esse livrinho amigo em horário de pico na praça da Sé. E que venha o próximo!

Não se esqueça de colocar as fotos da queima em seu twitter e fazer o alarde! Viva ao Caos!

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