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Das leituras de 2013

Acho que estou ficando velha. Tenho (ou tinha) uma memória ótima. Eu, sem esforço nenhum, decorava números de telefone, datas de aniversários de todos os familiares e amigos, senhas de todos os sites e emails e etc. Agora, nem o que eu li ano passado (11 dias atrás) – e concluí – eu sei com certeza.

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Colocando um expressão coloquial que expressa melhor o que tenho a dizer agora, eu, “meio que” apago tudo o que não interessa ou é – para mim – irrelevante como por exemplo nome de ruas e localização, informação banais sobre as coisas, nomes de marcas, nomes de filmes, nome de livros (após um período de não-contato com ele), nome de colegas de classe,  nome dos meus professores e até uma dificuldade de identificar quem são e de onde são os “conhecidos” não-íntimos que vejo na rua e matuto matuto e nada.

Sim, os tempos estão chegando. E com eles faço sempre uma lista imensa dos livros que “devo comprar e ler” e faço uma grande dos que conhecei e li até o final, dos que parei por motivo indeterminado, dos que achei um verdadeiro porre e definitivamente abandonei, dos que não sei onde estão e não lembro o nome, dos que efetivamente li, mas sem saber exatamente quando e em que ano, dos ebooks que comprei e de todas as primeiras páginas de vários livros que li “para saber se era bom”, sem contar os que peguei emprestado li e devolvi e não fiz anotações sobre e se perdeu no limbo lindo da minha mente sem retorno.

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Então, foi para mim muito penoso fazer uma pequena lista de alguns livros que realmente que li em 2013. Vamos lá:

1) Bonsai de Alejandro Zambra (ganhei de presente de aniversário de uma amiga linda ♥);

2) Solanin 1 e 2 de Inio Asano (mangá – peguei emprestado);

3) O clube dos suicidas de Robert Louis Stevenson;

4) A desobediência civil de Henry David Thoreau;

5) O sentido de um fim de Julian Barnes (peguei emprestado);

6) Criaturas da noite de Neil Gaiman;

7) Imagem violência – etnografia de um cinema provocador de Rose Satiko Gitirana Hikiji (que me render o post Kdrama à luz da antropologia);

8) @mor (ebook) de Daniel Glattauer;

9) Emmi & Leo – A sétima onda (ebook) de Daniel Glattauer;

10) Snuff de Chuck Palahniuk;

11) A volta do parafuso de Henry James;

12) Os dias estão todos ocupados – As aventuras de Calvin e Haroldo de Bill Watterson.

Os que comecei e não terminei (só alguns para não cansá-los), mas vou terminá-los (rs):

1) Mulheres Perfeitas de Ira Levin;

2) O império do efêmero de Gilles Lipovetsky;

3) Desonra de J. M. Coetzee;

4) Ficando longe do fato de já estar meio que longe de tudo de David Foster Wallace;

5) Os enamoramentos de Javier Marías;

6) Diário do subsolo de Fiódor Dostoiévski.

Jessica Jung

Os que comprei nos sebos do centro e ainda nem tive a chance de pegar para ler – e tenho que tomar vergonha na cara para ler -:

1) Moby Dick de Hermann Melville;

2) Cem anos de solidão de G.G. Márquez;

3) Os meninos do Brasil de Ira Levin;

4) Se um viajante numa noite de inverno de Ítalo Calvino;

5) Ilusões perdidas de Honoré de Balzac.

Os que comecei a ler e abandonei para nunca mais:

1) Como ficar sozinho de Jonathan Franzen (emprestado);

2) Uma longa queda de Nick Hornby (emprestado).

Os que pretendo começar a ler em 2014 aka comprar em algum lugar etc:

1) A elegância do ouriço de Muriel Barbery;

2) Mrs. Dalloway de Virgínia Woolf (sim, não li, mas agora é questão de honra)

3) Entrevistas com Andy Warhol coletânea da Blackie Books;

4) Tristessa de Jack Kerouac;

5) À primeira vista de Nicholas Sparks (Vou dar uma chance pro Nicholas porque ganhei esse livro – pela minha eficiência no trabalho rsrs);

6) O elogio da madrasta de Mário Vargas Llosa.

Jessica Jung

Dos que terminei a leitura confesso que O sentido de um fim me surpreendeu bastante, gostei muito do jeito como ele escreve e muito da história. Também me diverti muito – devorando mesmo – o romântico ebook @mor que a brisa toda acontece por email, digo, é romance virtual.

Bonsai também foi muito fofo, o que me fez querer conhecer outros escritores chilenos. A volta do parafuso me fez perceber – e em um momento oportuno – o quanto a gente pode pirar na batatinha sem fundamento nenhum… O clube dos suicidas de Robert Louis Stevenson só me confirmou como o humor refinado de Stevenson é genial e A desobediência civil de Henry David Thoreau me lembrou o tempo todo de Into the wild, há uma grande eloquência em nos convencer a sermos leitores vorazes – e não jogos -, me lembrou de Hakim Bey e terrorismo poético e me fazer ver que tenho sempre pé na conspiração.

Sem falar que Neil Gaiman – que não tenho muito contato em leituras – me fez perceber que um assunto simples contado de outra maneira ou talvez de uma maneira que só Neil Gaiman saiba pode se tornar um assunto extraordinário. Já Calvin é amor. ♥ Mas o meu “achado” de 2013 foi David Foster Wallace, que conto em outra ocasião.

P.S.: Li um HQ Fun Home de Alison Bechdel (emprestado, este eu realmente demorei para lembrar) e não tenho certeza se foi 2012 ou 2013 mesmo. Enfim, era um que ia com certeza fazer um post a respeito. Nesse tempo “indefinido” também li o HQ Wilson de Daniel Clowes – lindinho. Também o livro O arquiteto de Rui Tavares entre 2012/2013. Sem contar os do Batman. Comprei um Batman no Uruguai, mas daí é outro post.

E vocês de qual leitura mais gostaram em 2013? Conta ae!

Livro 9: Imagem-violência ou Kdrama à luz da antropologia

Outro dia estava lendo Imagem-violência (etnografia de um cinema provocador) e de repente me ocorreu que é quase ou exatamente isso que fazemos. (rs) Tudo bem, ainda sim não é isso porque não temos as metodologias ou bases teóricas, mas discutir efetivamente sobre as técnicas e formas como vemos e sentimos os dramas coreanos é também uma forma de analisar antropologicamente. Nunca tinha me ocorrido que fosse gostar tanto assim de antropologia, de cinema, de imagens e análises.

Tenho pensado a respeito quando me deparei com a seguinte ideia: ver qualquer imagem fílmica de outro país faz com que aprendamos a cultura e o comportamento desse país e consequentemente analisemos segundo a nossa cultura e comparemos, além de observarmos como e com qual reação vemos aquilo que está sendo passado e como e com qual reação eles veem isso – que não é do mesmo modo -.

 

Também me peguei, mais precisamente, comparando os dramas coreanos com os taiwaneses. E, também, agora nesse último dia 06 estive vendo um filme da indonésia e tive impressões completamente diferentes das dos outros dois. Achei interessante e intrigador, me lembrou algo mais pesado e inquiridor, algo como quando falamos sobre questões sociais de modo denso.

Acho que nós, doramáticos kdramistas drameiros, somos capazes de avaliar – já, de certo modo – como se dá parte da filmologia desses países, conseguindo até vislumbrar conceitos psicológicos, cultura nacional e outras coisas mais. Bom, digo a vocês que já sei o que nós fazemos por aqui: análises fílmicas. E que, não somente por sabermos o nome bonitinho da coisa, mas já estamos apurados o bastante para sabermos coisas como tomadas de cenas, tratamento com relação aos familiares e conceito de família, personagens tipos, relações entre homem e mulher, com relação ao sentimento patriota, etc.

“Os filmes seriam documentos culturais que projetam imagens do comportamento humano social por serem ficcionais.”

Em um primeiro momento a autora diz que análises fílmicas tiveram início na 2° guerra mundial nos EUA a fim de conhecer o inimigo, visto o pouco contato com a cultura, costumes, interesses. Era necessário saber como se pensa, como se sente, como se enxerga o mundo. Conhecer o inimigo para combatê-lo.

Os taiwaneses são mais leves, com histórias românticas relacionadas à moral e ao destino, com menor produção se comparado aos cenários e produções coreanas, os coreanos apresentam um repertório maior com relação ao tema, mas raramente se colocam para discutir questões sociais de cunho “mais forte”, eu sempre acho que na Coréia tudo é flores. A grande produção coreana trata dos temas comuns amorosos, aos relacionados a desejo de vingança, ambição, os de ação e política (eles sempre correlacionam ação e política).

Deste modo, convido todos a darem uma olhada no livro imagem-violência (circula pela internet um pdf) e lançarmos mão da antropologia e fazermos o que gostamos: assistir e analisar dorama. Vamos.

Livro 8: Reações Psicóticas

Essa aqui galera é para vocês caírem matando. Isso mesmo. Não estou dizendo para atrair uma grande discussão e xingamentos. Longe disso. Mas é porque hoje vou falar de Lester Bangs e sua crítica ao rock. Sobre o livro “Reações Psicóticas” de Lester Bangs publicado pela Conrad. Ler as suas entrevistas e artigos que fazia para as revistas de rock me deixou com uma saudade do que não vivi, de uma geração muito anterior que mal tive contato com os resquícios dos resquícios dos resquícios ou evitava ter.

Gostei de um post que encontrei na net por acaso de um blog sobre sertanejo, dizendo que rock nacional morreu porque era chato e teve show sertanejo no enterro, o que querendo ou não – nesse ponto de vista -, é a mais dura verdade e corroborando o fato com detalhes políticos (é ridículo, mas faz sentido). Então, leia. Mas há quem diga que isso não acontece, que é asneira popular e também apresenta bons termos para isso: aqui.

Lester Bangs também falou a respeito no começo do “Especial Kraftwerk”: “… o nosso caridoso editor me arrastou à sua sala para responder a inevitável pergunta: “Aonde está indo o rock?” “Ele está sendo tomado pelos alemães e pelas máquinas”, respondi sem hesitar. Mas, para você que ainda não sabe quem é Lester Bangs, muitos dizem quiçá o melhor crítico de rock, jornalista gonzo e percursor do estilo, que começou enviando suas matérias para a Rolling Stone, mas foi mandado embora por desrespeito para com os músicos e acabou trabalhando em revistas como Creem, polêmico, definiu a estética do heavy metal e do punk e muitos por aí começaram a copiar seu estilo. Morreu em 82 com 33 anos por overdose de medicamentos. O filme Quase Famosos (2000) o retratou.

Depois de ler a entrevista “Vamos agora louvar os famosos duendes da morte” de Lester Bangs com Lou Reed eu tive certeza de que seria roqueira fervorosa com tributo inteiro feito a Lester Bangs. Pena que você perdeu a época do rock“, diz Lester a William Miller no início de Quase Famosos. Isso mesmo. Faz tempo que todos nós somos simples recalcados. Faz tempo que as novelas da Globo do horário nobre ditam a moda e os costumes e que só tem trilha sonora sertaneja/ tecnobrega. Os dias de glória do rock se foram bem como as pessoas realmente headbangers.

Mas o rock se foi no sentido de estar aprisionado no seu próprio nicho. No sentido de se perder no seu “mundo” e não contagiar mais ninguém além dele mesmo, a graça do rock dos anos 60/70 estava em ser notícia, estar na boca do povo, como eu quero tchu eu quero tcha da época. Eles eram culturalmente superiores? Ao mesmo tempo nós temos preconceito com relação às coisas que fazem muito sucesso que são geralmente pouco culturais e de baixo nível e que levam os headbangers a serem estilos “isolados” (sem muita influência na mídia etc), alguns grupos etc. São ‘elite’ e não estão nem aí para propaganda e popularidade significa se vender ou ter baixo nível/qualidade. Até aí tudo bem, porém a sociedade sofre da premissa de que uma coisa para ser boa, tem que fazer história.

A título de curiosidade, eu perguntei a um amigo meu, que se diz headbanger “true” (de 17 anos) se o rock morreu, ele me deu a seguinte resposta: Vai tomar no cu. Nada mais justo.

Tudo o que temos hoje são coisas monótonas e altamente enfadonhas. O rock continua aí, o metal, mas o que está acontecendo? O que está faltando? Coitados. Somos recalcados de Elvis Presley. Somos recalcados de John Lennon. Lester Bangs fala sobre Elvis: “O caos sexual reina hoje em dia, mas do caos pode fluir a compreensão verdadeira e a harmonia, e de qualquer modo Elvis abriu quase sozinho as portas da represa. Naquela noite em Detroit, uma noite em que jamais esquecerei, ele precisava mexer não mais que um músculo do ombro, nem mesmo balançá-lo, e as garotas na platéia atingidas pelo seu raio berravam, desmaiavam, uivavam em fogo. Literalmente, cada vez que esse homem movia qualquer parte do seu corpo um mísero centímetro, dezenas ou dezenas de milhares de pessoas iam à loucura. Nem Sinatra, nem Jagger, nem os Beatles, ninguém que você possa citar jamais provocar tamanha histeria em tantos. E isso depois de uma década e meia de discos porcaria e de deixar claro que nem tentaria fazer melhor.”

E é exatamente isso. Hoje não falta rock, não falta talento, não falta aquilo que encontramos em apenas alguns artistas, aquilo que alguns chamam de carisma, outros de “um quê a mais”, mas eu sei que eu só piraria com Jack White no palco. Já posso fazer dele um símbolo, um líder da contra cultura, um artista pop art como Warhol, Hakim, ou Presley? Não. E é aí que a coisa pega. Talvez Amy Winehouse entre para a história, por sua voz, sua vida polêmica, seu agir transgressor ou único. A verdade é que não cultuaremos um cara certinho que come arroz e feijão e luta em prol dos animaizinhos.

As pessoas querem alguém que quebre as regras (ou pareça fazê-lo) e crie suas próprias, novo modo de agir, novo jeito de ser, novo it, novo in, novo resolva meu problema, querem pessoas que façam o que elas gostariam de fazer mas não têm coragem. E é por isso que alguns preferem sertanejo e big brother, porque pensar e questionar é difícil demais.

Somos de uma época que teve que buscar suas raízes de onde não nascemos, raízes falsas de bandas que tiveram outra experiência/forma de vida em meio a outra ideologia. Não são raízes sadias, as chamadas “influências”, mas raízes vazias, cheias de orgulho na “influência”, mas com cheiro de merda nenhuma que nem de longe se lembra as “raízes” (que já não existem) e muito menos criam algo diferente falando das coisas de hoje, da necessidade do agora. Nós não crescemos ao som de coisas que estimulassem nossa criatividade e mente para compor algo fudido. Nós não fomos criados para o rock. Tudo está bem quando acaba bem e quem precisa de rock a não ser para aquela nossa fase adolescente-rebelde?

Lester Bangs também discorre sobre isso: “Não sei o que é mais patético, as pessoas da minha geração que se recusam a deixar sua adolescência nos anos 60 morrer de morte natural ou mais jovens, que irão arrancar e devorar qualquer pedaço, qualquer migalha de um sonho de alguém declarou acabado há mais de 10 anos. Talvez os jovens sejam os mais tristes, porque ao menos os meus companheiros ainda têm alguma memória nostálgica das longas e frias lembranças que hoje eles se ajoelham para reavivar, enquanto os garotos têm que se virar com coisas tipo o show de Beatlemania e uma lista de mercadorias de consumo.”

O rock de 60/70 se desculpa na própria condição e necessidade da sociedade da época. É onde começa aquela nossa velha história do caos. E uma de suas teorias é a de que para se manter de pé precisa sempre ter um levante, estar marchando contra algo, pelo simples ato da revolução. E era nesse espírito que estava o rock, o verdadeiro rock. Esse rock que muitas bandas estão de pé até hoje, mas pá quem dá trela para eles agora? Os pensamentos mudaram, a ideologia, a tecnologia, o mundo girou. Eles eram culturalmente superiores?

Lester Bangs fala de seu tédio e preocupação com esse futuro no prefácio da edição italiana: “Pra ser sincero, estou tão alienado e enojado a ponto de me perguntar se quero mesmo fazer algo nos próximos anos. Veja bem, a questão é: tudo está ficando como a revista People. Todo o rádio, toda a imprensa, tudo está ficando assim, até o ramo editorial. Ontem, falando com meu empresário, perguntei a ele: “Você acha que, continuando assim, a única coisa vendável vai ser a biografia-putaria de uma celebridade?” E ele respondeu: “Não sei”. Entende? Estou aqui e me pergunto se, como escritor, não seria melhor mandar tudo isso às favas.”

Sorte do Bangs não viver muito para ver que até as pessoas estão como a revista People. O rock continua aí, mas não é apenas um estilo musical. E é por isso que as opiniões são destoantes e muita gente ainda não entendeu. Rock bom de agora (90s)? Sim, claro: Queen of the stone age, The Strokes, Arctic Monkeys, The Hives, Wolfmother, SOAD, Jack White, etc etc nacional? Torture Squad etc etc. Mas e aí? E o power e as pessoas que quebrem as regras e gerem milhões de seguidores e garotinhas berrando?

Estamos vagando nessa onda de post-hardcore e zumbis é tudo o que me vem à cabeça. Na verdade, um grande sono me domina. Screamo? Screamo? Bah. Estamos também sendo dominados pelos indies. 9 entre 10 pessoas que você conhece curte alguma banda indie e seus milhões de subgêneros. Mas é explicável. Nossas situações cotidianas pedem indie e estão em total acordo com a filosofia indie, é a nova cultura contemporânea, independente, urbana, diversificada, alternativa e totalmente mainstream (mesmo que se recuse a parecê-lo).

Uma das coisas que gostei em Lester Bangs é que suas citações são audaciosas. São aguilhões, alfinetadas boas, sensatas. “Em outras palavras, Lou Reed é um pervertido depravado completo e um duende patético da morte e tudo mais que você quiser pensar que ele é”. Tipo: “1. The Guess Who é Deus; 2. Burton Cummings é o herdeiro inquestionável e por direito do manto espiritual de Jim Morrison.”

Lester cita Warhol sempre e fala das músicas e álbuns sobre emoções próprias ao ouvir, considerações de letras e brisa filosoficamente e até descreve performances em shows: “Mas o que você acharia se visse uma banda parar no meio de uma música longa para: Ler um boletim meteorológico de mentira. Correr para trás de um dos músicos que vai à frente do palco catar o microfone e gesticular animado para o público,enquanto outro membro vestido de gorila imita cada gesto seu. Pulular em volta do palco fantasiados de coelhinhos. Parar a música de novo, o silêncio quebrado pelo tinir de um telefone no palco, atendido prontamente por um dos membros da banda: “Alô? Ah, sim, vou ver se ele está.” Vira-se para o público: “Tão chamando um tal de Mike Nelson”. (…) Se essa é sua ideia de entretenimento, corra atrás de um ingresso na próxima vez que Jethro Tull estourar na cidade.” (em Jethro Tull no Vietnã)

Se você olhar para Lester e perguntar se eles eram culturalmente superiores, pode-se dizer que sim. Mas, acho sinceramente que você terá uma reação psicótica após ter lido tudo isso aqui.

Lester Bangs na net: Ha, Ha, Ha, Ha, Ha.

Livro 7: Aprendi com Jane Austen ou Porque não ler Jane Austen!

Eu não gosto de Jane Austen por causa romance. Muito pelo contrário, é por causa do Mr. Darcy. Na verdade, muita gente passa longe de “Orgulho e Preconceito” ou qualquer livro da Jane Austen simplesmente pelo fato de achá-la “romântica”. Mas, Jane Austen é realismo. E se você prestar atenção comparado a romance mesmo, tem muito pouco.

Vamos lá. Resolvi falar de Jane Austen, porque estou lendo “Aprendi com Jane Austen” de William Deresiewicz. Se eu te disser que Deresiewicz é um crítico literário que era um professor de Inglês na Universidade de Yale e lecionou na Universidade de Columbia, onde ele concluiu o seu bacharelado e doutorado… SO, imediatamente você transferirá o livro para um patamar de algo ultra mega bom, uma vez que você o imagina falando criticamente a respeito dos nossos 6 preferidos livros. Só que não.

Até agora não sei do que se trata esse livro. Em que gênero esse ET se encaixaria? ET literário. Balela grande. Bobagento literário. Auto-ajuda literária. Diário literário. Emoções tensas literárias. Na verdade só de você ler o subtítulo, você já sabe do que estou falando: “Como seis romances me ensinaram sobre amor, amizade e as coisas que realmente importam”. pff

Pois sim. O ET literário nada mais é que tudo o que os nossos blogs de “resenha” e discussão sobre dramas (no caso livros), em que colocamos todos nossas impressões e reações pessoais incluindo até experiências próprias para “explicá-las”.

Primeiro, o que é crítica literária afinal? MUITO BOM RECOMENDO. Mas tudo bem. Nós entendemos que a pretensão do livro não era essa. Era só um ensaio, “pensamentos” a respeito dos livros. Eu acho. Ele fala sobre experiências da própria vida e como ele empregou as “lições” da mestre Austen. Parece ridículo, mas ele vê Austen como uma professora que ensina coisas banais (que podem facilmente serem ensinadas) como caráter e comportamento – rsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrs.

Ele nos diz o que qualquer um que lesse os livros da Jane já saberia: que Jane Austen fala sobre a importância de valores e princípios, caráter e comportamento, como observar as mais distintas personalidades, não confiar totalmente nelas ou em suas “primeiras impressões” etc etc etc.

Deresiewicz pecou, para mim, porque não falou sobre o estilo leve de Jane ao escrever, o seu humor fino e sutil, sua ironia e sua crítica mordaz à sociedade da época, até mesmo de seus arquétipos queridos. Deresiewicz diz o livro todo que só aprendeu sobre amor e amizade? Vocês conseguem ver a dissonância disso?

Não é fácil galera. A cada frase como “A vida é feita de mudanças. Nós sabemos disso. Jane Austen sabia disso também” era uma facada na minha barriga. Como um ultraje a Jane Austen. Eu via Jane Austen agonizando a cada palavra que a lisonjeava e seria tudo que, ela em vida, zoaria grandão, ou melhor, sambaria na cara.

Eu confesso que com o livro também passei a ver Jane Austen de outra maneira… dó da pobre coitada que já teve versões zumbis de seus livros. tsc Eu só consigo ver a estrutura da história. Ele falou de elementos na estrutura dramática que ela empregou que foi original como o “obstáculo” entre Mr. Darcy e Elizabeth, que, era um conflito interno e não externo.

Ele também cita, que achei interessante, que quem gosta de Jane Eyre (Charlotte Bronte) não gosta de Orgulho e Preconceito (Jane Austen) porém mais entre os críticos quando ele estudava ainda etc. Isso por ambas representarem o conflito de romantismo X realismo, achei engraçado porque atualmente eu admiro os dois livros da mesma forma, sem se levar pelas minhas convicções próprias. Aliás, acredito bem que, posso ler um livro que fala sobre coisas que não acredito ou compactuo e ainda sim ser uma boa obra. Voltamos à questão da crítica literária. Será que faz parte dela o julgamento de livros a partir das nossas próprias convicções, sendo completamente parcial?

Sim, para o meu benefício próprio e etc etc etc Jane Austen mudou a minha vida. Mas, estamos longe de discutir Jane Austen imparcialmente, analisando sua história, sua estrutura, sua linguística e expressões e no que isso resultou e que efeitos produziu…

Hoje quando releio aleatoriamente, eu já não vejo mais o romance. Também não me importa muito. Porque Mr. Darcy, galera, só o da Jane Austen mesmo.

Vocês não devem ler Jane Austen se for para ler um crítico literário desses depois. E tenho dito.

Livro 6: Mais estranho que a ficção

Sempre me considerei um ser antissocial. Mas de uns tempos para cá resolvi reconsiderar isso. Uma porque tenho fixação por histórias, contar histórias, ouvir histórias, ler histórias, ver histórias. E para tanto há um potencial comunicador aí implícito que me faz querer cada vez mais lidar com pessoas, conhecer pessoas, (por que não dizer personagens?). Segundo porque diálogos e conversas se prestarmos a devida atenção são tão estimulantes (para mim) desde Jane Austen e mais minhas amigas do ensino médio.

Eu sempre prezei muito o bom papo. Coisa estranha e esquisita, uma vez que sempre falei muito pouco e que ler me alienou demasiadamente, pois o ato de ler é sozinho e o muito pensar, fatídico.

Com o tempo, fui percebendo que agregar não é tão ruim assim, e que, nós como telespectadores (quando leitores) podemos ficar mais próximos dos personagens, mas como amigos (aka figurantes) dos atores da realidade (pff) nós os compreendemos melhor por vê-los de perto e em retrospecto (quase 4D).

Eu sempre fui uma grande telespectadora. E ver de perto todos os tipos de pessoas e suas histórias é algo que você simplesmente não pode se negar a vivenciar só para carregar consigo a sua classificação condecorada de “antissocial”.

Geralmente é uma característica das pessoas “perdedoras” aka losers serem mais antissociais. Mas elas só são consideradas antissociais porque querem se encaixar na sociedade e “vencer” dentro dela – sendo como os outros e tendo o mesmo padrão de sucesso e felicidade que os outros -; se eles não tivessem essa necessidade de conexão com as outras pessoas, não seriam losers, seriam alternativos. Mas, se considerarmos que eles querem vencer na sociedade, então, losers: you’re doing it wrong.

Mas “antissocial” é colocado como aquele que não participa daquilo que a maioria das pessoas participa por não se sentir bem. Se pensarmos bem, existe ser antissocial convivendo dentro da sociedade? Isso é possível? Você está certo disso?

Chuck Palahniuk me fez pensar em tudo isso no seu livro “Mais estranho que a ficção”. Eu terminei de ler ontem. Mais precisamente me apaixonei por Marilyn Manson em “Ler para você mesmo” e sua frase: “É estranho, mas embora a música seja algo para se escutar, acho que a música nos ouve também, sem julgar. Um garoto pode encontrar algo com que se identifique. Ou um adulto. É um lugar para onde você pode ir, onde não vão julgá-lo. Não há ninguém dizendo no que você deve acreditar.”

Chuck também faz um retrato de Juliette Lewis em “Nas palavras dela”. São pequenos “contos” sobre determinadas pessoas e seus estilos de vida, suas manias, sua intimidade, coisas que nunca vimos, consideramos ou imaginamos. São pinceladas de modos de vida contemporâneos e uma enxurrada toda sobre escrita e literatura.

A realidade é muito mais rica que toda ficção já criada, a ficção é basicamente respiros da realidade ou uma peça de retalhos dela. A ficção é um emaranhado de realidade, é a realidade da sua cabeça (como autor), é algo que depois de escrito pode até se tornar real. (Como ele cita o exemplo de Clube da Luta). Por que não?

Chuck me fez pensar em romances transgressores e a força e adrenalina que eles geram. É vontade de mudança, de terrorismo, de puro CAOS, é causar mesmo. O João me disse outro dia que “o ser humano não é social droga nenhuma”. E eu já digo a vocês que “o ser humano não é antissocial droga nenhuma”. O que me diz claramente isso é a eficácia com que ele mesmo faz amizades (com uma facilidade incrível). É falando mal dos outros. Falando mal mesmo. Criticando, zoando. CAUSANDO. É fazer o CAOS que está na moda. Nós não queremos saber mais de mesmice. Se você causar, as pessoas vão te notar, talvez elas até parem para pensar a respeito. Elas te seguirão. As pessoas querem ser movidas pelo CAOS, elas querem participar disso. Elas querem coisas diferentes. Elas querem greves, pichações, badernas, estardalhaços, multidões, pânico, causar mesmo.

Causar faz parte do “personagem” que você carrega como seu. Esse tempo todo, esse seu estilo de se vestir, as músicas que escuta, o jeito como você fala, com quem anda, o que acredita é uma questão de corroborar com esse personagem que você sustenta como seu. Estou errada? Em “O ampliador de lábios” Chuck fala da beleza e dos lábios de Brad Pitt, mas não é sobre o Brad, é sobre esses personagens que somos e nossa busca louca por mantermos isso. É o que temos. Você já causou hoje?

Quando você sai por aí e toca o horror é libertador. É sobre isso que os livros de Chuck Palahniuk falam. É por isso que eu adoro o Chuck. É por isso que tocar o horror é mais agregador que qualquer coisa. As pessoas querem a diferença, o novo, a liberdade através da subversão. É adrenalina pura. É a salvação desse tédio.

Chuck Palahniuk é fodástico, com um humor indescritível, uma descrição mordaz da realidade. Tem uma alegria amarga e um “assustador-bom” que nos faz “perder o medo de viver” e ver que pintar a realidade está pau a pau com a ficção. Ele me fez querer ler Psicopata americano, A gangue da chave-inglesa e todos os livros do Sr. Ira Levin (O bebê de Rosemary, Mulheres Perfeitas) e o minimalismo de Amy Hempel. Ele até me fez lembrar da Miguita com a citação “O que Carl Jung pensaria de tudo isso?”. (rs)

A verdade é que Mais estranho que a ficção deixa um gostinho de quero mais. E ele diz algo que resume tudo o que eu disse nesse post: “O mundo é feito de pessoas que contam histórias. Vejam só o mercado das ações. Olhem a moda. E qualquer história mais longa, qualquer romance, é apenas a combinação de histórias curtas.” E no começo do livro: “Se você não notou, todos os meus livros tratam de pessoas solitárias que buscam alguma forma de se conectar aos demais.”

Tudo o que fazemos nos blogs, nas redes sociais é contar histórias. Compartilhamos histórias. Vivemos o que depois só será uma história. Nosso cotidiano – se não contarmos as coisas que fazemos – tudo só se dá através das trocas, dos diálogos, das interações. Errado? Existe então o antissocial? Se existe, ser antissocial implica em não gostar de histórias. E, eu, muito pelo contrário. Deixa eu contar uma história pra vocês…

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