62. Valid Love (K-drama)

Valid Love é no mínimo do mínimo um dos dramas mais lindos e lindamente dramáticos que já vi. Já explico: nada de dramão e climão de ficar chorando horrores pelos cantos, isso não.

 

O drama real nem é o tema polêmico retratado com delicadeza ímpar, mas sim o quanto de drama que transmite ao passar as cenas mais simples, naturais, sem pressa, um close na mesa, na chaleira, no café ou soju servido, nos respingos da chuva focada na janela. No começo da drama, reparem, chove muito. Vem chuva, vem uma nostalgia e eu fiquei pensando em quantos dramas nós vimos chover. Chuva é tão real.

 

Drama é quando traz aquela dor no nosso peito quando vemos essas cenas de transição, as cenas que preenchem com toques de realidade, as cenas que mostram o quão verossímil podem ser aquelas cenas, essa história. Essa é a parte que mais gostei, que mais me impressionou no drama.

 

A história “polêmica” é essa de uma mulher casada que se apaixona por outro homem e o “trai”. Sendo narrada pelo marido traído Jang Hee-Tae (Uhm Tae-Woong), mas sem entrar tanto em seu ponto de vista, ao narrar ele nos transmite uma paz, uma paz de quem já sabe do que aconteceu e está anos na frente apenas recordando tudo o que passou.

 

 

Então descobrimos com ele como eles se conheceram – ele professor substituto, ela uma estudante enérgica – como ele foi o primeiro em tudo na vida de sua esposa Kim Il-Ri (Lee Si-Young), a curiosidade dela em conhecer como seria com outros homens e os problemas familiares alinhados à vida do casal, aparentemente perfeito. A irmã doente dele que ela passava a maior parte do tempo cuidando, as puladas de cerca de seu sogro e a diferença de escolaridade entre eles.

 

Há muitos e muitos pequenos significados e sentidos implícitos dentro desse enredo, eles sugerem, mas não falam. A sua mãe (dele/sogra dela) vive uma vida inteira sabendo que é traída e suportando e tentando abafar os casos dele. Já ele, o marido traído, como homem, descobre através de um vizinho a suposta traição da esposa e segue – como sua própria mãe, a averiguar – e nunca, nunca poderia superar isso.

 

 

É muito clara a fatalidade, toda a história se desenvolve através de ações e impasses que poderiam ser evitados, suscetíveis de não terem ocorrido, com um toque de fatalidade, de destino fadado.
Outra questão: por que ela, a mulher que traiu, tendo pouca escolaridade foi a destinada a trair?

 

O desenrolar da trama segue muito mais complexo e acompanhamos l envolvimento da mulher casada com um carpinteiro Kim Joon (Lee Soo-Hyuk) (alguém do nível de escolaridade dela, logo do “nível” dela? – isso é uma leitura que é possível fazer) e acontece um beijo e nada mais…

 

A mulher se vê confusa, mas a princípio não quer largar o marido, mas ela sente que gosta dos dois e procura explicação para isso, como seria possível amar dois homens ao mesmo tempo? Porém, a mudança dele com ela, a sua paranoia, as fotos como evidência fizeram com que ele não conseguisse perdoá-la, o endureceu e de algum modo nunca podendo voltar a ser o mesmo como era antes. Com os sentimentos separados do ressentimento (isso que todos nós sabemos muito bem) e quebrando assim pouco a pouco, causando a ruptura do casal.

 

 

O carpinteiro por outro lado está na primeira viagem e se dedica ao seu amor pela mulher casada. Ao mesmo tempo os acontecimentos juntam os dois homens também e eles também passam a ter um estranho relacionamento, se admiram e se odeiam. Aos poucos também surge outra pessoa para o marido traído.

 

E nas idas e vindas do casal principal, a mulher que traiu resolve “seguir em frente” não com o carpinteiro, mas algo como se encontrar após todas aquelas situações. Mas o carpinteiro segue firme na conquista – e efetivamente nos conquista na sua honestidade e constância – e passamos a aceitar sim o novo casal.

 

 

Dada as circunstâncias que se colocam na mesa, tudo é plausível para aceitação mesmo resultando ser algo impuro ou imoral aos olhos do que já está regido no mundo. Não é essa a moral implícita em cada um desses episódios?

 

 

Mas antes de fechar o assunto, não poderia deixar de falar da melhor – A MELHOR – personagem desse drama e que carregou a maior parte do verdadeiro drama em si. A irmã do marido traído Jang Hee-Soo (Choi Yeo-Jin) que não podia andar ou falar – sendo outrora bailarina – mas que se levantava durante as cenas para dizer o que pensava e sentia.

 

 

E esse espírito livre que se levantava e pensa e fala e sente tão espontâneo pela personagem. Que amor e que dor vê-la. Que delicado e sensível representar assim alguém que tem uma deficiência, uma doença, um problema.

 

Ironicamente, a melhor personagem do drama não anda e não fala. Mas grita – só diz e representa o que está dentro – que as vezes não escutamos, que não ouvimos o mais íntimo, o que pensamos, o que sentimos. A única que a entende ao olhar é a mulher que trai. Eu não sei vocês, mas eu vejo nisso uma e belíssima metáfora. Não tem como não amar esse drama! Valid Love! Vai lá ver e me diz que achou 😉

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