Livro 8: Reações Psicóticas

Essa aqui galera é para vocês caírem matando. Isso mesmo. Não estou dizendo para atrair uma grande discussão e xingamentos. Longe disso. Mas é porque hoje vou falar de Lester Bangs e sua crítica ao rock. Sobre o livro “Reações Psicóticas” de Lester Bangs publicado pela Conrad. Ler as suas entrevistas e artigos que fazia para as revistas de rock me deixou com uma saudade do que não vivi, de uma geração muito anterior que mal tive contato com os resquícios dos resquícios dos resquícios ou evitava ter.

Gostei de um post que encontrei na net por acaso de um blog sobre sertanejo, dizendo que rock nacional morreu porque era chato e teve show sertanejo no enterro, o que querendo ou não – nesse ponto de vista -, é a mais dura verdade e corroborando o fato com detalhes políticos (é ridículo, mas faz sentido). Então, leia. Mas há quem diga que isso não acontece, que é asneira popular e também apresenta bons termos para isso: aqui.

Lester Bangs também falou a respeito no começo do “Especial Kraftwerk”: “… o nosso caridoso editor me arrastou à sua sala para responder a inevitável pergunta: “Aonde está indo o rock?” “Ele está sendo tomado pelos alemães e pelas máquinas”, respondi sem hesitar. Mas, para você que ainda não sabe quem é Lester Bangs, muitos dizem quiçá o melhor crítico de rock, jornalista gonzo e percursor do estilo, que começou enviando suas matérias para a Rolling Stone, mas foi mandado embora por desrespeito para com os músicos e acabou trabalhando em revistas como Creem, polêmico, definiu a estética do heavy metal e do punk e muitos por aí começaram a copiar seu estilo. Morreu em 82 com 33 anos por overdose de medicamentos. O filme Quase Famosos (2000) o retratou.

Depois de ler a entrevista “Vamos agora louvar os famosos duendes da morte” de Lester Bangs com Lou Reed eu tive certeza de que seria roqueira fervorosa com tributo inteiro feito a Lester Bangs. Pena que você perdeu a época do rock“, diz Lester a William Miller no início de Quase Famosos. Isso mesmo. Faz tempo que todos nós somos simples recalcados. Faz tempo que as novelas da Globo do horário nobre ditam a moda e os costumes e que só tem trilha sonora sertaneja/ tecnobrega. Os dias de glória do rock se foram bem como as pessoas realmente headbangers.

Mas o rock se foi no sentido de estar aprisionado no seu próprio nicho. No sentido de se perder no seu “mundo” e não contagiar mais ninguém além dele mesmo, a graça do rock dos anos 60/70 estava em ser notícia, estar na boca do povo, como eu quero tchu eu quero tcha da época. Eles eram culturalmente superiores? Ao mesmo tempo nós temos preconceito com relação às coisas que fazem muito sucesso que são geralmente pouco culturais e de baixo nível e que levam os headbangers a serem estilos “isolados” (sem muita influência na mídia etc), alguns grupos etc. São ‘elite’ e não estão nem aí para propaganda e popularidade significa se vender ou ter baixo nível/qualidade. Até aí tudo bem, porém a sociedade sofre da premissa de que uma coisa para ser boa, tem que fazer história.

A título de curiosidade, eu perguntei a um amigo meu, que se diz headbanger “true” (de 17 anos) se o rock morreu, ele me deu a seguinte resposta: Vai tomar no cu. Nada mais justo.

Tudo o que temos hoje são coisas monótonas e altamente enfadonhas. O rock continua aí, o metal, mas o que está acontecendo? O que está faltando? Coitados. Somos recalcados de Elvis Presley. Somos recalcados de John Lennon. Lester Bangs fala sobre Elvis: “O caos sexual reina hoje em dia, mas do caos pode fluir a compreensão verdadeira e a harmonia, e de qualquer modo Elvis abriu quase sozinho as portas da represa. Naquela noite em Detroit, uma noite em que jamais esquecerei, ele precisava mexer não mais que um músculo do ombro, nem mesmo balançá-lo, e as garotas na platéia atingidas pelo seu raio berravam, desmaiavam, uivavam em fogo. Literalmente, cada vez que esse homem movia qualquer parte do seu corpo um mísero centímetro, dezenas ou dezenas de milhares de pessoas iam à loucura. Nem Sinatra, nem Jagger, nem os Beatles, ninguém que você possa citar jamais provocar tamanha histeria em tantos. E isso depois de uma década e meia de discos porcaria e de deixar claro que nem tentaria fazer melhor.”

E é exatamente isso. Hoje não falta rock, não falta talento, não falta aquilo que encontramos em apenas alguns artistas, aquilo que alguns chamam de carisma, outros de “um quê a mais”, mas eu sei que eu só piraria com Jack White no palco. Já posso fazer dele um símbolo, um líder da contra cultura, um artista pop art como Warhol, Hakim, ou Presley? Não. E é aí que a coisa pega. Talvez Amy Winehouse entre para a história, por sua voz, sua vida polêmica, seu agir transgressor ou único. A verdade é que não cultuaremos um cara certinho que come arroz e feijão e luta em prol dos animaizinhos.

As pessoas querem alguém que quebre as regras (ou pareça fazê-lo) e crie suas próprias, novo modo de agir, novo jeito de ser, novo it, novo in, novo resolva meu problema, querem pessoas que façam o que elas gostariam de fazer mas não têm coragem. E é por isso que alguns preferem sertanejo e big brother, porque pensar e questionar é difícil demais.

Somos de uma época que teve que buscar suas raízes de onde não nascemos, raízes falsas de bandas que tiveram outra experiência/forma de vida em meio a outra ideologia. Não são raízes sadias, as chamadas “influências”, mas raízes vazias, cheias de orgulho na “influência”, mas com cheiro de merda nenhuma que nem de longe se lembra as “raízes” (que já não existem) e muito menos criam algo diferente falando das coisas de hoje, da necessidade do agora. Nós não crescemos ao som de coisas que estimulassem nossa criatividade e mente para compor algo fudido. Nós não fomos criados para o rock. Tudo está bem quando acaba bem e quem precisa de rock a não ser para aquela nossa fase adolescente-rebelde?

Lester Bangs também discorre sobre isso: “Não sei o que é mais patético, as pessoas da minha geração que se recusam a deixar sua adolescência nos anos 60 morrer de morte natural ou mais jovens, que irão arrancar e devorar qualquer pedaço, qualquer migalha de um sonho de alguém declarou acabado há mais de 10 anos. Talvez os jovens sejam os mais tristes, porque ao menos os meus companheiros ainda têm alguma memória nostálgica das longas e frias lembranças que hoje eles se ajoelham para reavivar, enquanto os garotos têm que se virar com coisas tipo o show de Beatlemania e uma lista de mercadorias de consumo.”

O rock de 60/70 se desculpa na própria condição e necessidade da sociedade da época. É onde começa aquela nossa velha história do caos. E uma de suas teorias é a de que para se manter de pé precisa sempre ter um levante, estar marchando contra algo, pelo simples ato da revolução. E era nesse espírito que estava o rock, o verdadeiro rock. Esse rock que muitas bandas estão de pé até hoje, mas pá quem dá trela para eles agora? Os pensamentos mudaram, a ideologia, a tecnologia, o mundo girou. Eles eram culturalmente superiores?

Lester Bangs fala de seu tédio e preocupação com esse futuro no prefácio da edição italiana: “Pra ser sincero, estou tão alienado e enojado a ponto de me perguntar se quero mesmo fazer algo nos próximos anos. Veja bem, a questão é: tudo está ficando como a revista People. Todo o rádio, toda a imprensa, tudo está ficando assim, até o ramo editorial. Ontem, falando com meu empresário, perguntei a ele: “Você acha que, continuando assim, a única coisa vendável vai ser a biografia-putaria de uma celebridade?” E ele respondeu: “Não sei”. Entende? Estou aqui e me pergunto se, como escritor, não seria melhor mandar tudo isso às favas.”

Sorte do Bangs não viver muito para ver que até as pessoas estão como a revista People. O rock continua aí, mas não é apenas um estilo musical. E é por isso que as opiniões são destoantes e muita gente ainda não entendeu. Rock bom de agora (90s)? Sim, claro: Queen of the stone age, The Strokes, Arctic Monkeys, The Hives, Wolfmother, SOAD, Jack White, etc etc nacional? Torture Squad etc etc. Mas e aí? E o power e as pessoas que quebrem as regras e gerem milhões de seguidores e garotinhas berrando?

Estamos vagando nessa onda de post-hardcore e zumbis é tudo o que me vem à cabeça. Na verdade, um grande sono me domina. Screamo? Screamo? Bah. Estamos também sendo dominados pelos indies. 9 entre 10 pessoas que você conhece curte alguma banda indie e seus milhões de subgêneros. Mas é explicável. Nossas situações cotidianas pedem indie e estão em total acordo com a filosofia indie, é a nova cultura contemporânea, independente, urbana, diversificada, alternativa e totalmente mainstream (mesmo que se recuse a parecê-lo).

Uma das coisas que gostei em Lester Bangs é que suas citações são audaciosas. São aguilhões, alfinetadas boas, sensatas. “Em outras palavras, Lou Reed é um pervertido depravado completo e um duende patético da morte e tudo mais que você quiser pensar que ele é”. Tipo: “1. The Guess Who é Deus; 2. Burton Cummings é o herdeiro inquestionável e por direito do manto espiritual de Jim Morrison.”

Lester cita Warhol sempre e fala das músicas e álbuns sobre emoções próprias ao ouvir, considerações de letras e brisa filosoficamente e até descreve performances em shows: “Mas o que você acharia se visse uma banda parar no meio de uma música longa para: Ler um boletim meteorológico de mentira. Correr para trás de um dos músicos que vai à frente do palco catar o microfone e gesticular animado para o público,enquanto outro membro vestido de gorila imita cada gesto seu. Pulular em volta do palco fantasiados de coelhinhos. Parar a música de novo, o silêncio quebrado pelo tinir de um telefone no palco, atendido prontamente por um dos membros da banda: “Alô? Ah, sim, vou ver se ele está.” Vira-se para o público: “Tão chamando um tal de Mike Nelson”. (…) Se essa é sua ideia de entretenimento, corra atrás de um ingresso na próxima vez que Jethro Tull estourar na cidade.” (em Jethro Tull no Vietnã)

Se você olhar para Lester e perguntar se eles eram culturalmente superiores, pode-se dizer que sim. Mas, acho sinceramente que você terá uma reação psicótica após ter lido tudo isso aqui.

Lester Bangs na net: Ha, Ha, Ha, Ha, Ha.

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